Entrevista Praise Machine

É o mesmo camarim onde devassos como Marylin Manson e Boy George empoaram os narizes para seus espetáculos em São Paulo. A poucos metros a turba juvenil na platéia já faz barulho e pede logo o rock’n’roll de sua banda predileta. Pelos sofás de couro, ou diante dos vastos espelhos circundados de lâmpadas, não há um só cigarro aceso. Um rapaz de torso tatuado circula de toalha enrolada enquanto outro afina uma guitarra. Na geladeira patrocinada pela Bohemia só há água e guaraná. O clima tenso pelo enorme atraso na passagem de som e pelos defeitos técnicos nos equipamentos que em questão de minutos deveriam gravar um DVD não suscita um palavrão sequer. O comentário que tranqüiliza os músicos e produtores vem de Piu Rock, o vocalista da banda estrela da noite: “Nessas horas é que o Senhor age”.

É segunda-feira, passa das oito da noite, falta pouco para começar um dos mais importantes shows da carreira de uma década da Praise Machine (em português, Máquina de Louvar), uma das bandas de rock evangélico que mais vende discos no Brasil. É o primeiro registro ao vivo dos seis amigos – no início de 2006 será lançado em CD, o quarto da banda, e DVD pelo selo Gospel Records, a divisão musical da igreja Renascer, aquela da bispa Sônia Hernandes.

A Praise é um bem-acabado exemplo do isolamento do rock gospel do mundo “secular”. Sim, secular, o termo que os evangélicos usam para definir o mundo mais terreno, o mundo não evangélico. A Máquina de Louvar já vendeu 60 mil CDs. O grupo CPM 22, que acaba de ganhar o cobiçado VMB de Escolha da Audiência na MTV, comercializou 65 mil cópias de seu último álbum. A diferença é que os rapazes gospel jamais tocaram em uma rádio secular, nunca apareceram na Rede Globo e seus clipes não constam nas prateleiras da MTV. Mas em termos de estrutura os roqueiros de Cristo podem fazer inveja a muito pop star por aí.

O estúdio onde gravam e ensaiam para o show do Olympia, uma das maiores casas de show de São Paulo, é raro no Brasil. Comprado e reformado recentemente pela igreja Renascer, o lugar tem duas salas de gravação, inúmeros filtros, efeitos, teclados, microfones de luxo, mesa e caixas para edição de DVD em surround e um sofisticado gravador de rolo analógico. Entre aquelas paredes acústicas, os seis rapazes apostólicos são profissionais como poucas bandas mundanas. Não param para cafés, cigarros ou baseados. Não se escuta um palavrão, não batem boca nem fazem troça uns dos outros. Quatro horas quase que ininterruptas de ensaio e meticulosas correções nos arranjos. Como músicos são tecnicamente impecáveis. »»

De volta ao camarim. Três integrantes acabam de ter seus cabelos cortados e engomados pelo cabeleireiro contratado pela produção. E nesse instante uma equipe da Rede Gospel, também da Renascer, invade o camarim do Olympia. A repórter estica o microfone ao rosto de Piu Rock.
– E aí, Piu? O que você espera do show de hoje?
– É um sonho que o Senhor realiza. Adorar ao Senhor. Adorar ao Senhor. É para isso que eu vim.
O vocalista gente fina que tem nos profanos americanos do Aerosmith sua banda favorita não fala de Deus a toda hora. Mas quando a câmera é acionada ele veste sua voz de uma entonação uniforme e desembucha palavras como “louvor”, “salvação”, “temente a Deus”. Ainda sob a tensão da pane dos equipamentos de palco, Piu prossegue, cristianamente resignado:
– Tudo isso é para a obra de Deus. O som tá ruim? Usa o som ruim para a obra de Deus.
Três horas antes, perto das cinco, já chegava à porta do Olympia o primeiro da fila. Homem de ar sério, sentado ao lado de uma banquinha de fitas, pulseiras e gorros com o nome de Jesus. “Não sou fã da banda. Sou fã de Jesus”, explica. Chama-se Valdo, tem a idade de Cristo, e vende os mementos para complementar a renda dos serviços publicitários que faz – backlights e letreiros comerciais. Valdo não é de nenhuma igreja, mas gosta muito de rock “do bem”, bem mais intenso do que a Renascer costuma lançar: “Gosto de white metal extremo. Exquisite Trash. Bandas tipo Mortification e 7th Avenue. A mensagem é mais direta mesmo, ou vai ou racha, entende?”. Valdo já foi punk, encheu a cara de álcool e drogas. Largou tudo para não acabar com o sossego da família e se aproximou mais da palavra de Jesus por conta própria. E tenta, na raça, seguir o exemplo do Leão de Judá. Ajuda instituições no seu bairro, Guaianazes, e não quer ter filhos para não atrapalhar

Deus Ajuda
Não há propriamente um líder na Praise Machine. Mas Doninha, o baterista, muitas vezes assume o papel de porta-voz. Ele, como quase todos na banda, é casado e tem filhos – quatro. Foi criado evangélico desde os 6 anos, quando sua mãe foi “resgatada” por uma missionária que bateu à porta. Já bebeu, fez besteiras, chegou a experimentar drogas, mas não conseguiu levar o vício adiante pelo temor a Deus. Há dez anos, quando montou um grupo de louvor para tocar apenas nos cultos, não sabia que estava formando o embrião da banda que hoje tenta levar como prioridade. Seu grupo já fez façanhas como uma turnê de ônibus de 67 dias pelo Brasil, com direito a uma escala de avião em La Paz, onde tocaram para mais de 3 000 pessoas e foram tratados como estrelas pelos jovens cristãos da capital boliviana.

Todo ano o Praise Machine é atração no SOS da Vida, um mega festival de bandas gospel que reúne no mesmo palco dos mais melosos pentecostais até a mais cabulosa banda de heavy metal. O público vibra com tudo. Independente do estilo, o que o povo por lá quer é cantar para Jesus e Seu Pai. Enquanto os Strokes, Kings of Leon e MIA preenchem capas de revistas e jornais e levam juntos 30 mil almas para seus shows em São Paulo, o último SOS da Vida juntou 50 mil pessoas no estacionamento do Anhembi. No fim deste mês, a façanha deve se repetir. E os Praises vão estar lá.

Mas apesar da respeitável fama no mundo evangélico e das dezenas de milhares de cópias vendidas, a Praise Machine não chega a ser uma máquina de dinheiro. Assim como o mambembe rock independente secular, a verba que paga as contas dos roqueiros de Cristo não vem da banda. A razão é simples: a maioria dos festivais e shows que fazem são em benefício das obras da igreja. “Não é certo cobrar por isso.” Mais raramente é que algum empresário cristão promove um festival com declarados fins lucrativos e paga o devido cachê. Por isso todos têm empregos. Dois dias antes do show no Olympia, participando ao vivo do programa de TV da Renascer Clip Gospel, Lobão, o percussionista, explica por que a falta de pagamento não abala seus nervos: “Nosso maior cachê é resgatar almas”.

Durante o programa, Lobão está sentado ao lado de Gadelha, o guitarrista. Ambos dão seu testemunho de como Deus agiu em suas vidas por meio do rock’n’roll. Atrás deles, um cenário de design polêmico e uma pequena arquibancada onde oito jovens trajando estampas joviais com o nome de Jesus dão gritos de u-hu toda vez que alguém ergue a voz ao falar do Senhor. Lobão falava de como já foi “bem louco”. Assim como seu homônimo secular, usou drogas e bebeu até cair. Teve overdoses e chegou a pesar 20 quilos a menos do que hoje. A igreja e a banda o resgataram. Na tela do Clip Gospel surge uma matéria sobre sua vida doméstica, suas duas filhinhas e seus estudos de filosofia. Sempre que tem chance, Lobão cita os filósofos que gosta de ler – Sartre, Nietzsche e Marcuse. Mas ressalta: “Nenhum se compara a Jesus”. »»

Ao lado, o bonachão Gadelha sorri. Conta em rede nacional como Jesus o conduziu seguro por São Paulo até a porta de uma Renascer no dia em que chegou, de carona, vindo fugido da pobreza do Pará. Depois de 15 anos é dono de uma pequena loja atacadista de CDs evangélicos na rua Conde de Sarzedas, no centro de São Paulo, o maior pólo comercial de produtos evangélicos. Nesse estabelecimento, no segundo andar de um modesto edifício, vende todos os subgêneros de sons de Deus. Das baladas gloriosas conservadoras, chamadas de pentecostes, que vendem horrores (cantoras como Cassiane batem um milhão de cópias, algo que nem Rei Roberto Carlos consegue hoje em dia), até o “contemporâneo moderno” de bandas como a sua Praise Machine. E, graças ao Senhor Jesus, a pirataria não assombra Gadelha ou as gravadoras celestiais. “Evangélico não compra pirata. Sabem que é errado”, afirma o guitarrista. Nos três quarteirões que concentram boxes, lojas e porões abarrotados, Gadelha não pára de cumprimentar os  lojistas – atacadistas de adesivos cristãos, camisetas parodiando grifes em nome de Jesus e distribuidores de Bíblias em liquidação, empilhadas em carrinhos de supermercado.

As luzes do Olympia já se apagaram e o público uiva. A banda está pronta para deixar o camarim, mas não antes do insumo principal, daquilo que nenhum roqueiro gospel que se preza dispensa para dar aquele grau – uma prece da boa. De mãos dadas, a banda e convidados. O pastor Fernando, o primeiro vocalista da Praise Machine, comanda a oração: “Pai, faça com que cada rufo de bateria possa derramar toda Sua glória”. Todos fecham os olhos e balbuciam suas próprias palavras. Fernando mantém os altos decibéis: “O talento não substitui a unção, ó Pai. Damos lugar à ousadia que há em teu espírito”. Alguns chacoalham para cima e para baixo. “Deus, abençoe esses dedos que vão tocar, em nome de Jesus. Amém!” Palmas. Gadelha faz um polichinelo. Tudo pronto para o palco. Um pastor mestre-de-cerimônia avança a cortina enquanto a banda toma seu posto. “Isso aqui é mais do que um CD ou um DVD. Isso é pro Senhor!” UUU-HUUUU, o povo grita como antes de qualquer mega atração terrena.

O pano corre e as caixas explodem o rock da Máquina de Louvor. Braços erguidos para lá e para cá. Se é uma balada, sincronia de mãos pra cima. Se vem som porrada tem gente que se joga em mosh nos braços dos colegas. São atirados pra cima. Garotas balançam forte a cabeça esparramando seus cabelos. Piu Rock empolga o povo: “Tira o pé do chão para Jesus”. E todo mundo pula. “Deus é Fiel! É fiel mesmo!” UUU-HUUUU!!! Nenhuma fumaça sobe pelo ar. Nenhum copo de cerveja na mão. “Nós fazemos parte de uma geração privilegiada, pois temos liberdade de expressão, de estilo e de ritmo para proclamar o santo nome do Senhor.” Palmas efusivas. “Vamos orar para nossos governantes para que este país seja finalmente um país de servos de Deus”, conclui Piu, antes de emendar o hit. “Sou apostólico, ô, ô, andando em poder!!!”

Quando acaba o show, uma hora e dez depois, o povo não arreda o pé para esperar os Militantes. Em questão de meia hora uma gigantesca e pacífica roda de pogo vai tomar o Olympia sob o bate-pronto do hardcore. Muita gente vai tirar os sapatos e levá-los ao ar para imitar Moisés quando arrancou suas sandálias ao pisar em terra santa. Nesse momento Doninha e seus comparsas estão comendo melancias e suspirando nos sofás de couro negro do camarim superior. Satisfeito, Doninha? “Não. Poderia ter sido melhor. Para Deus a gente tem que dar sempre o melhor”, conclui antes de embrulhar os pratos de sua bateria e sair da casa de shows cercado de mulheres – a esposa, a cunhada e suas duas filhas.

Fonte: http://revistatrip.uol.com.br/139/reza/01.htm

Anúncios

Publicado em 08/02/2010, em Batalha Espiritual, Textos e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: